A Stock Car é a categoria mais rápida?

Você é daqueles que gosta mais dos carros de corrida do que das próprias corridas? E já se pegou pensando em disputas hipotéticas, entre veículos de categorias completamente diferentes, tentando imaginar qual seria o vencedor dessa “corrida dos sonhos”? Caso suas respostas tenham sido “sim”, saiba que não está sozinho e que tais questões foram a inspiração para este texto!

Os carros da Stock Car

Os atuais carros da Stock Car estrearam em 2020, trazendo uma pequena revolução para o grid. Os monoblocos voltaram para a categoria, mas apenas como componentes de carroceria, combinados ao chassi tubular utilizado pelos carros da geração anterior da Stock. Tal combinação facilitou a permanência dos motores V8 e da tração traseira, agilizando, também, todo o processo de desenvolvimento da suspensão. Porém, adicionou peso aos veículos e afetou o desempenho da categoria.

Stock Car (2019)Stock Car (2021)
Goiânia1:24.1991:27.284 (+ 3,7%)
Velo Città1:27.9261:31.125 (+ 3,6%)
Interlagos1:36.7071:39.800 (+ 3,2%)

Os tempos de volta listados acima correspondem a pole position da Stock Car nos respectivos circuitos e anos, mostrando em porcentagem quanto tempo a mais os atuais carros levam para alcançar o mesmo objetivo. Em comparação direta, a perda média de desempenho foi de 3,5%. Apesar da leve queda de desempenho, a Stock Car segue como uma das principais categorias de carros de turismo do automobilismo.

Stock Car contra o mundo

Estando entre as principais categorias de turismo no mundo, cada dia mais exportando pilotos para os principais campeonatos internacionais, a Stock se faz relevante no cenário estrangeiro. Mas é aí que surge a dúvida inspiradora dessa análise: quão rápidos são os carros da Stock Car em relação aos principais carros de turismo do mundo hoje?

Para responder essa questão, será o utilizado o mesmo método de comparação visto acima nesta publicação, que leva em consideração os tempos de pole position marcados nos treinos oficiais de cada categoria. Entretanto, a comparação direta entre Stock Car e NASCAR, por exemplo, se faz inviável quando lembramos que esses carros não correm se quer no mesmo país, quem dirá nos mesmos circuitos. A solução, então, é utilizar o popular regulamento GT3 como base, devido ao seu nível de desempenho sempre constante e sua presença em quase todas as regiões.

Os carros selecionados para a comparação são:

Stock CarGT500 (Super GT)SupercarsNASCAR (Cup)BTCCTCR
6.8 V82.0 4L Turbo5.0 V85.8 V82.0 Turbo2.0 4L Turbo
550 cv659 cv659 cv760 cv304 cv350 cv
RWDRWDRWDRWDFWD/RWDFWD
1385 kg1030 kg1395 kg1542 kg1280 kg1285 kg
* FWD (tração dianteira); RWD (tração traseira).

Stock Car x GT3

GT3 (Endurance Brasil 2021)Stock Car (2021)
Curitiba1:15.5881:20.515 (+ 6,5%)
Velocitta1:26.4811:31.125 (+ 5,4%)
Interlagos1:32.5801:39.800 (+ 7,8%)

Quando comparamos os carros da Stock Car diretamente com os GT3 que disputam a temporada 2021 do Endurance Brasil, obtemos um desempenho médio 6,6% pior. Apesar da média mais elevada (em relação à geração anterior da Stock), a variação entre as amostras é maior do que na comparação com a geração anterior, o que dá destaque para os números do Velocitta.

Os modelos preparados pela Giaffone Racing para Stock Car apresentam uma perda de desempenho menor no circuito de Mogi Guaçu, que tem como característica um traçado mais travado.

Os Super GT da GT500

GT3 (GT300 – Super GT 2021)GT500 (Super GT 2021)
Fuji1:35.3431:26.496 (- 9,3%)
Motegi1:47.7371:37.498 (- 9,5%)
Suzuka1:57.3221:45.128 (- 10,4%)

De forma única (e através de muita tecnologia) os “GTs” da Super GT vão além da capacidade de qualquer outro carro de turismo ou mesmo gran turismo. Isso acontece pelo fato dos carros estarem conceitualmente mais próximos de um protótipo de Le Mans do que de um carro de turismo.

O regulamento que norteia a construção dos carros do GT500 é o Class One, o mesmo utilizado pelo DTM até 2020 e que fez da categoria uma das mais avançadas do mundo. Em resumo, são carros construídos sobre um chassi do tipo monocoque (de fibra de carbono) e que possuem aerodinâmica extremamente refinada, além de uma unidade de potência bastante avançada. Portanto, considerar os carros do GT500 como carros de turismo é quase uma covardia com os demais carros da categoria – e só foram elencados aqui para fins ilustrativos.

(V8) Supercars, os reis da Austrália

GT3 (GT WC Australia 2021)Supercars (2021)
Mount Panorama2:02.8632:05.598 (+ 2,2%)
The Bend1:46.4831:48.186 (+ 1,6%)

Mesmo com a pandemia e os poucos dados para se analisar no biênio 2020-21, a principal categoria australiana se destaca pela proximidade em resultado com os carros GT3. Além do principio de construção próximo ao da Stock Car, com chassi tubular e componentes de carroceria idênticos ou similares ao dos modelos de rua representados, a Supercars ainda trás o câmbio sequencial (com alavanca) e o pedal de embreagem como componentes importantes em seus carros. Com tudo isso em mente, o resultado entregue surpreende num esporte onde a inovação técnica é a chave do sucesso.

NASCAR e as curvas para a direita

GT3 (GT WC America 2021)NASCAR Cup Series (2021)
COTA2:05.9512:12.911 (+ 5,5%)
Road America2:05.9252:12.049 (+ 4,9%)
Indianapolis1:23.318*1:27.765 (+ 5,3%)
* Tempo de pole position para as 8 Horas de Indianapolis de 2020.

Sendo a mais pesada das categorias eleitas para esse comparativo, a NASCAR surpreende com sua média de desempenho 5,2% pior que os carros GT3. Outro fator que torna o desempenho da categoria estadunidense tão impressionante é o fato de seus carros serem desenvolvidos principalmente para os ovais. Ainda assim, em circuitos longos e/ou de grandes retas, como os selecionados, toda a potência dos carros da NASCAR se faz presente e relevante.

BTCC, os reais carros de turismo

GT3 (British GT 2020)BTCC (2020)
Brands Hatch1:23.4631:31.111 (+ 9,2%)
Snetterton1:47.652*1:56.858 (+ 8,5%)
* Tempo de pole position da etapa de 2021.

Das categorias já citadas até o momento, o BTCC é a primeira que conta com carros de turismo em essência e de fato. Todos os modelos presentes no grid do campeonato britânico são modelos de rua adaptados para as pistas, com melhorias de segurança e desempenho mas mantendo aparência e dimensões quase idênticas as dos veículos originais. E, por se tratarem de modelos “civis”, com bastante limitação técnica e dinâmica, o resultado obtido é completamente compreensível.

TCR, a fórmula GT3 para carros de turismo

GT3 (GT WC Europa 2021)TCR (TCR Europa 2021)
Zandvoort1:33.5861:43.668 (+ 10,8%)
Nurburgring1:54.2842:06.751 (+ 10,9%)
Monza1:46.4421:57.073 (+ 9,9%)

Tal qual os GT3, carros TCR se adequam a um regulamento muito popular mundo a fora. São feitos com base em modelos de produção, visando o melhor “custo x desempenho” possível para serem atrativos ao público e viáveis às equipes.

O resultado do regulamento FIA é um carro 10,5% mais lento que um GT3, em média. Diferença explicada por uma série de fatores, começando pela óbvia diferença de potência e passando pela diferença estrutural dos carros, eixo de tração e apêndices aerodinâmicos permitidos pelo regulamento técnico da categoria.

O resultado

CategoriaDesempenho Médio
GT500 (Super GT)– 9,73%
GT30,0 (base de comparação)
Supercars+ 1,9%
NASCAR Cup Series+ 5,23%
Stock Car+ 6,57%
BTCC+ 8,85%
TCR+ 10,53%

Em comparação direta, a Stock Car apresenta resultados piores do que categorias de conceito similar (chassi tubular e carroceria). Todavia, não podemos deixar de lembrar que os dados utilizados aqui correspondem a um recorte da realidade de cada categoria e, assim, não devem ser tomados como absolutos.

Os carros da NASCAR correm majoritariamente em circuitos mistos de muita velocidade, conseguindo compensar o alto peso com a grande potência. Já os carros da Stock correm com potência limitada para aumentar a durabilidade e reduzir os custos da categoria e, ainda assim, apresentam bons indícios em circuitos de baixa velocidade quando comparados aos GT3.

Números à parte, o intuito não é definir qual a melhor categoria e, sim, como elas se comparam em desempenho puro. Seja Stock Car, NASCAR, ou onde for, o importante é destacar a qualidade das corridas. E, independente da potência ou dos tempos de classificação, corridas boas são frequentes na maioria das categorias citadas.

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