Fórmula 1: a sutil beleza na Classificação Sprint

No último domingo (12), o GP da Itália repetiu o feito de 2020 ao entregar uma corrida de surpresas. Mas, diferente do que vimos no ano passado, a corrida de 2021 teve o fator Classificação Sprint como peça chave nos acontecimentos do Grande Prêmio. O mesmo também ocorreu em Silverstone, quando o novo formato estreou.

Ainda em regime de teste, o formato não agradou aqueles mais apegados às tradições da Fórmula 1. O medo de que a nova corrida, encaixada aos sábados, tome parte do prestígio dos Grandes Prêmios move uma parcela das críticas ao formato. Outros, julgam não ser necessária tal mudança ao não perceberem as motivações por trás da tentativa.

Enquanto um fim de semana típico de Grande Prêmio é composto por três sessões de treinos livres, um treino oficial (classificação) e uma corrida com duração de 300 km, as etapas escolhidas para testar o novo formato têm dois treinos livres, um treino oficial, uma corrida de classificação com duração de 100 km e a corrida principal com duração de 300 km.

Além de levar competição para cada um dos três dias de evento, beneficiando quem opta por assistir uma corrida in loco, o principal atrativo do novo formato é a redução no tempo de preparação que as equipes têm a cada etapa. Tradicionalmente, são três sessões de 1 hora cada para que os times achem o ajuste perfeito para seus carros. Tudo isso antes de entregar à FIA o gabarito de ajustes e disputar a classificação e a corrida sem mais alterações nas configurações dos bólidos. Com o novo formato, a classificação foi movida para a sexta-feira e a exigência do gabarito com as especificações de cada carro permaneceu, reduzindo o tempo hábil de coleta de dados e ajuste para 1/3 do que era.

Com a menor precisão por parte das equipes, maior se torna a imprevisibilidade técnica para a etapa. E isso vai na contramão de como os pilotos evoluem ao longo do fim de semana, uma vez que duas corridas passam a existir.

As corridas de sábado vistas até o momento não encantaram muito. Houveram, sim, movimentações no grid, abandonos e até batidas, mas, de forma geral, as corridas de classificação (ou classificação sprint) se mostraram monótonas. Algo compreensível, visto que apenas os três primeiros colocados da prova pontuam, recebendo 3, 2 e 1 ponto, respectivamente. Entretanto, mesmo sendo sutil, a influência das corridas de sábado foi fundamental para o que vimos de mais espetacular nos Grandes Prêmios em questão.

Silverstone

Depois de cravar a volta mais rápida do Q3 na sexta-feira, superando Max Verstappen por 0.075s, Lewis Hamilton largou do melhor lugar possível no sábado. Todavia, o piloto da Red Bull largou melhor, tomando a liderança ainda antes da primeira curva. Hamilton, então, o seguiu de perto, buscando o vácuo na reta Wellington e se aproximando para o ataque ao fim da antiga reta de largada. Lewis tentou a ultrapassagem por fora na Copse, uma curva rápida à direita e viu sua tentativa falhar. Na sequência, veio o complexo das curvas Maggots, Becketts e Chapel para frustrar o piloto da Mercedes na hora de manter-se próximo do carro à sua frente, graças à turbulência gerada pelo mesmo.

Verstappen venceu a corrida de classificação, ganhou os três pontos e assegurou a melhor posição de largada do grid para o domingo. E Lewis aprendeu. Ao ter uma situação real de corrida, Hamilton viu o quanto seu carro realmente era afetado pela turbulência na sequência de curvas iniciada na Maggots, compreendendo, então, que deveria superar Max antes da Copse, caso quisesse a liderança.

No domingo, o Grande Prêmio da Grã-Bretanha viu Max e Lewis protagonizarem um dos melhores momentos da atual Fórmula 1. Da largada, passando pela curva 1, cruzando a reta Wellington lado a lado para o ápice, mais uma vez, na Copse. Hamilton era quem atacava e, diferente da tentativa realizada no dia anterior, agora seu carro estava por dentro após um movimento preciso a fim de superar seu adversário. Mas a tangência não foi das melhores e houve contato, ocasionando a forte batida e o abandono de Verstappen.

Independente de sua opinião sobre o lance (que eu chamo de incidente de corrida), é notável a mudança de postura de Lewis Hamilton entre as corridas de sábado e domingo. O piloto teve a chance de “testar” o movimento, além de perceber de forma empírica sua importância ao sofrer o impacto de não tê-lo realizado nas curvas seguintes. Apesar de pouco movimentada, a corrida de classificação deu aos pilotos um novo stint em cada corrida, impactando mais na progressão de corrida de cada competidor do que acontece com a classificação padrão.

Monza

Na Itália, a Mercedes garantiu a primeira fila para a corrida de classificação. Mesmo com Bottas na frente, a equipe alemã tinha programado antes da largada: Bottas deveria ceder sua posição. Mas corridas são corridas e o inesperado, vez ou outra, faz-se presente.

No sábado, Lewis Hamilton largou mal e foi superado não só por Max Verstappen — que largava da terceira posição — como também pela dupla da McLaren antes mesmo da Prima Variante. Ao fim da primeira volta, Valtteri Bottas seguia na liderança com Max Verstappen atrás. Daniel Ricciardo era o 3º, Lando Norris o 4º e Lewis Hamilton apenas o 5º.

Com a punição de Bottas para o domingo, pela troca do motor, a ordem dos pilotos vista acima converteu-se na liderança de Verstappen, com Daniel Ricciardo largando ao seu lado. Hamilton partiu da segunda fila, uma posição atrás de Lando Norris.

A corrida de classificação serviu para mostrar a todos a capacidade dos carros da McLaren na veloz Monza. Lewis Hamilton não conseguiu superar Lando Norris no decorrer das 18 voltas, mesmo tendo em mãos um dos dois melhores carros da temporada.

Graças aos ocorridos da corrida de classificação, Daniel pode largar da primeira fila no domingo e, mais uma vez, executar uma partida brilhante. No Grande Prêmio, foi a vez de Verstappen ser superado, com Lewis tendo de brigar com Lando Norris pela terceira posição.

Alguns podem até dizer que Daniel só venceu porque as principais ameaças a sua liderança bateram, mas para esses é necessário lembrar: as expectativas para a etapa estavam sob a Mercedes, a mesma Mercedes que não superou a McLaren na corrida de classificação. É verdade que a amostra foi pequena, mas nem por isso deixa de ser um indicativo de capacidade naquela ocasião.

Para Ricciardo, a prova realizada no sábado foi fundamental em sua corrida de domingo. Daniel largou do lado direito em ambas as situações, sempre bem, ganhou posições na chicane que dá fim a reta dos boxes e se aproveitou de seu bom carro para manter os rivais atrás.


Assim como ocorreu em Silverstone, a classificação sprint de Monza teve cara de um stint extra na prova. Não foi uma corrida das mais movimentadas, mas serviu de base para os principais acontecimentos da corrida de domingo. A progressão de corrida (ou racecraft, como dizem em inglês) de cada piloto é consideravelmente incrementada com a pequena prova de sábado, uma vez que, além de ganhar posições, os pilotos tem situações de corrida real para testar suas jogadas e conhecer as ações e reações de seus oponentes.

Portanto, mesmo que o formato não perdure, seu impacto até o momento é considerável na qualidade dos Grandes Prêmios. Talvez não sirva para calar as críticas e até perca uma de suas justificavas com o próximo regulamento técnico, mas o formato deixou suas marcas.

A próxima etapa prevista para receber a classificação sprint é o Grande Prêmio de São Paulo, marcado para acontecer entre os dias 12 e 14 de novembro na capital paulista. E as expectativas sobre a etapa são grandes e vão desde a incerteza de sua realização até o impacto no campeonato.

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