F1 e as curvas inclinadas

O GP dos Países Baixos chegou e Zandvoort, um velho conhecido da Fórmula 1, está de cara nova especialmente para a ocasião. A última vez que a categoria esteve presente em solo neerlandês para uma corrida foi em 1985, quando Niki Lauda conquistou a última vitória de sua magnifica carreira. E na época o traçado era um tanto quanto diferente do atual.

De 1985 para cá, Zandvoort passou por muitas reformas e reformulações, sendo a última com o propósito de adequar a pista às necessidades da Fórmula 1. E agora, em 2021, o circuito é responsável por trazer as curvas de grande inclinação de volta ao calendário.

No traçado reformulado, as curvas 3 e 14 ganharam mais inclinação – e relevância devido a peculiaridade dentre as demais curvas do calendário. Ambas as curvas tem inclinação de até 19° e são contornada em sentidos opostos, com a 3 senda para a esquerda e a 14 para a direita.

Curvas inclinadas, por outro lado, não são novidades para quem segue o automobilismo estadunidense, com a NASCAR e IndyCar sendo famosas pelos ovais. E apesar de pouco frequentes para a Fórmula 1, tal tipo de curva também não é inédita. Então que tal revisitar o passado e conhecer alguns dos momentos mais “íngremes” da F1?

Indianapolis Motor Speedway

Sendo Indianapolis um dos templos do automobilismo, era óbvio que cedo ou tarde a Fórmula 1 moderna teria de correr no circuito. E diferente do que aconteceu na primeira década de vida da F1, quando a já existente Indy 500 foi incorporada ao calendário sem contar com a presença daqueles que disputavam a temporada na Europa, em 2000 um Grand Prix de verdade foi realizado no autódromo localizado no estado de Indiana.

Para a ocasião, Indianapolis passou a contar com um traçado misto na parte interna ao oval. O novo desenho seguia no sentido horário e fazia da Curva 1 do oval – com 9º de inclinação – sua curva final. O autódromo foi sede do GP dos Estados Unidos de 2000 a 2007, sem ter vida fácil nesse período.

O momento mais crítico dessa relação se deu em 2005, quando o público presente teve de assistir uma corrida com apenas seis carros. A vergonha foi motivada por um problema dos pneus Michelin, levando a fabricante a vetar a participação de suas clientes na corrida por motivos de segurança. Dessa forma, sete das dez equipes do grid recolheram seus carros aos boxes logo após a volta de apresentação, restando em apenas seis carros no grid – duas Ferraris, duas Jordans e duas Minardis.

Grid de largada do GP dos Estados Unidos de 2005. Foto: Getty Images.

O problema em questão foi gerado pelo novo asfalto implementa na única curva do oval que o traçado utilizava. A novidade implementada em 2005 adicionava ranhuras ao pavimento e acabou por gerar carga lateral superior ao esperado pela Michelin, ocasionando o estouro do pneu esquerdo traseiro de alguns carros na etapa. A fabricante de pneus ficou na Fórmula 1 até 2006, com Indianapolis deixando o calendário no ano seguinte.

Autodromo Nazionale di Monza

Um dos destinos mais rápidos do atual calendário da F1 trás em seu passado algo ainda mais extraordinário. Monza, na Itália, abriga aquele que foi um dos raros ovais do continente europeu. Um oval de respeito, completo, com duas amplas curvas com inclinação de cerca de 38° ligadas por duas retas.

O traçado, todavia, foi combinado ao misto de Monza, totalizando 10 km de muita velocidade e foi utilizado na Fórmula 1 de forma intermitente, abrigando os GPs da Itália de 1955, 1956, 1960 e 1961. Juan Manuel Fangio e Sir Stirling Moss venceram as duas primeira edições, respectivamente, com Phil Hill vencendo as duas últimas.

Dentre as curiosidades que envolvem o traçado e a F1, está o fato dos GPs de 1956, 1960 e 1961 terem sido o palco para a decisão do campeonato. Outra curiosidade está na peculiar imagem do Mercedes-Benz W196 Type Monza contornando uma das curvas inclinadas de oval italiano durante o GP de 1955. O carro em questão fugiu completamente do que imaginamos como carro de fórmula ao ostentar uma carroceria com para-lamas cobrindo suas rodas.

Mercedes-Benz W196 Type Monza de Fangio liderando o W196 de Karl Kling. Foto: Motorsport Images/LAT Images.

AVUS

AVUS, ou “simplesmente” Automobil-Verkehrs- und Übungsstraße (Pista de Treinamento e Trafego Automotivo, em tradução livre), foi um circuito de rua localizado em Berlim, na Alemanha, que de sua fundação, em 1921, até 1935 contava com apenas duas retas e duas curvas para totalizar uma extensão de quase 20 km.

Para 1937, esforços foram realizados com o objetivo de assegurar AVUS como o circuito de corridas mais veloz, culminando na estreia de uma curva inclinada de 43° feita de tijolos. Sendo a mais inclinada curva já vista num circuito de corridas, a parede localizada no setor norte do circuito logo recebeu o apelido de Muro da Morte, uma vez que não havia qualquer barreira em seu topo para conter carros que pudessem se perder ao contorná-la.

Em 1959, depois uma sequência de anos realizando o GP da Alemanha em Nürburgring, a prova foi movida para AVUS como resultado de manobras politicas e financeiras. Pilotos e equipes não ficaram satisfeitos com mudança, uma vez que a pista não trazia semelhança com outros traçados de Grand Prix da época, mas correram mesmo assim.

Curva inclinada no setor norte de AVUS, GP da Alemanha de 1959. Foto: Motorsport Images/LAT Images.

A corrida sediou um formato então inédito, com dois heats de 30 voltas cada, tendo Tony Brooks como vencedor ao final. Mas o que marcou a etapa foi a morte de Jean Behra, que corria de Porsche num evento preliminar. Behra perdeu o controle de seu carro na curva norte, indo em direção ao topo da curva e sendo lançado de seu carro, que ficou estacionado na borda da curva durante toda a corrida. Behra morreu na hora, ao se chocar contra um mastro de hastear bandeira que ficava no topo da curva.



Apesar de não serem novidade para a Fórmula 1, curvas inclinadas nem sempre foram amigáveis com a categoria. Ainda assim, geraram momentos históricos e até impensáveis para os dias atuais.

Para o GP dos Países Baixos, não teremos o peso de Indianapolis nem as velocidades assustadoras de Monza e AVUS (relativamente), mas a multidão laranja de fãs de Max Verstappen prometem fazer da corrida uma grande festa para não ser esquecida. Mais ainda, fica a esperança para o GP de 2022, quando os novos carros estarão na pista.

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