Fórmula 1: o Halo e os acidentes

No último domingo (29), a Fórmula 1 relembrou a todos que o automobilismo é um esporte perigoso. Logo após a largada, quando os carros deixavam a curva 3 em direção a reta que abriga a primeira zona de DRS, o francês Romain Grosjean teve um toque com o carro de Daniil Kvyat e perdeu o controle de seu veículo.

Em alta velocidade e sem controle do carro #8 da Haas, Grosjean acertou o guard rail da parte interna do traçado num ângulo próximo de 90º. Com o forte impacto, uma explosão ocorreu e a tensão subiu. Pouco depois, fomos informados que o piloto já havia saído do carro por conta própria, em meio às chamas que dominaram o local do acidente. Romain teve apenas ferimentos leves em relação à gravidade da batida (queimaduras nas mãos e tornozelo), e ficará de fora do próximo Grand Prix, que se dará também no Circuito Internacional do Bahrein, no próximo domingo (6).

O ocorrido com o francês serviu para recordar a todos que o esporte em questão é perigoso e, na pior das hipóteses, pode ser fatal. A etapa belga da Fórmula 2 em 2019 não nos deixa mentir. Ainda assim, o acidente também serviu para mostrar o quão capaz a Fórmula 1 é no quesito segurança, pondo em prática diversas redundâncias para que o piloto saísse com lesões mínimas. Todavia a discussão recai apenas sobre o halo e, por isso, a proposta desse texto é um olhar mais cuidadoso sobre os “milagres” atribuídos ao dispositivo.

Lá em 2018, quando se tornou obrigatório, o halo foi motivo de polêmicas. Na balança estavam seu acréscimo em segurança, constatado em testes na hora de evitar o choque de grandes objetos contra a cabeça do piloto, contra críticas diversas. A primeira e mais óbvia ressaltava o ponto fraco natural do dispositivo, que ainda permite a passagem de objetos menores por seus vãos. Contra isso a FIA, que desenvolveu a peça, apostou numa significativa melhora que os capacetes sofreram. Também vale ressaltar que o halo não tem o objetivo de blindar o piloto, mas sim evitar que o mesmo fique tão exposto a uma roda solta, por exemplo. Outras críticas, mais vazias, atestavam contra o halo pelo impacto que causaria no visual dos carros e por “alterar” uma característica essencial dos carros de fórmula, o cockpit aberto.

Independente dos contrários, todos os carros da Fórmula 1 e Fórmula 2 passaram a contar com o dispositivo a partir daquele ano e, desde então, vemos uma incessante necessidade de atestar em favor dele. Como se a peça precisasse disso para permanecer nos carros de fórmula.

Ainda em 2018, na etapa de Barcelona da Fórmula 2, tivemos a primeira atuação do halo. Ainda como coadjuvante no acidente entre os japoneses Nirei Fukuzumi e Tadasuke Makino, o novo item de segurança já recebeu glórias, uma vez que nele tinham marcas de pneu. Isso era uma clara prova de eficiência, pois havia evitado o choque do pneu de Fukuzumi com a cabeça de Makino. Mas basta ver o replay e as fotos para perder a certeza na afirmação anterior.

É inegável que na situação em questão o halo garantiu uma maior área segura para o piloto, mas daí a afirmar que salvou sua vida há um grande passo. E revendo as imagens — e tendo em mente que após um acidente os carros envolvidos deixam de seguir na direção que iam anteriormente — dá para notar que apesar de tocar no halo, o pneu de Fukuzumi pega no dispositivo de raspão uma vez que seu carro iniciou um movimento de rotação no próprio eixo. Talvez, sem o halo, a roda tivesse passado mais rente a Makino, mas não pegaria em seu capacete. Também vale ressaltar que o carro de Nirei, quando sobreposto ao de Tadasuke, primeiro vai de encontro ao “Santo António” e só depois encosta no halo, quando já havia sido desviado do japonês.

E todo esse foco no acidente da Fórmula 2 é em função do que se deu na largada da Fórmula 1 em Spa-Francorchamps, meses depois. A impactante cena do carro de Fernando Alonso passando por cima do Sauber de Charles Leclerc fez com que todos recordassem a largada do GP Belga de 2012, no qual um caos semelhante ocorreu. Mas no fim o primeiro incidente da Fórmula 1 a envolver o halo comporta as mesmas conclusões do lance da F2.

O McLaren de Alonso é atingido por trás, lançado sobre o carro de Leclerc e, num movimento em direção ao chão, toca com perceptível intensidade no halo. Mas ao atingir o carro de Leclerc, tanto o McLaren quanto o próprio Sauber tem suas rotas alteradas pelo impacto. E olhando mais atentamente da para o notar que o contato ocorre na frente do dispositivo de segurança, em sua haste frontal, num momento em que o carro de Leclerc já estava deslizando de lado. O halo, portanto, serviu para garantir uma área segura maior para o jovem talento da Ferrari, mas não chegou a salvá-lo, uma vez que sem a sua presença a roda do McLaren passaria a alguns (poucos) centímetros de sua cabeça.

Momento exato do toque entre o pneu de Alonso e o halo de Leclerc.

Antes que você se perca nesse texto, isso não é um ataque ao halo. Muito pelo contrário! O halo é só mais um dispositivo de segurança presente nos carros da principal categoria do automobilismo e, tal qual num avião, serve de redundância ao aumentar a proteção do piloto sem ser, de fato, o salvador da pátria em diversas situações. Essa é sua real função. E assim vamos ao seu primeiro milagre unânime: o acidente de Alex Peroni em Monza, pela Fórmula 3 em 2019.

Cedo ou tarde havia de acontecer e a curva Parabólica, de Monza, foi o palco da indesejável exibição. Após alçar um voo muito alto para um carro de corridas, Peroni foi salvo pelo halo uma vez que seu carro não aterrissou sobre o chão. Caindo sobre a estreita barreira de proteção, Alex só teve seu capacete poupado do contato graças a estrutura implementada naquele ano na categoria. O choque seria o de um carro caindo dos céus e, no ponto de aterrissagem, a cabeça do jovem piloto seria o primeiro ponto de contato com a barreira. Não há formas de negar a ação do halo.

Mesmo assim, talvez como um sintoma da internet polarizada da atualidade, a necessidade de atribuir milagres e funções a peça permaneceu. E casos ocorridos em 2020, onde o halo foi irrelevante, foram alçados como justificativas para sua existência. Repetindo: como se isso fosse necessário para que o dispositivo permaneça na F1.

O auge desse desespero, se podemos colocar assim, chegou no incidente envolvendo Antonio Giovinazzi e George Russell no GP da Bélgica de 2020. Após a batida de Antonio, um pneu se soltou de seu carro e George o atropelou. Com a roda de seu próprio carro. Não houve contato algum com o halo do Williams de Russell. Mas a mera hipótese foi usada como razão de sua eficiência. Não de existência, como de fato é, mas de eficiência.

Por ironia, o onboard de Russell durante o incidente mostra o ponto fraco do item de proteção, quando uma pedaço de fibra vem do alto e cai no capacete do piloto. O objeto em questão não ofereceu risco para o piloto que estava de capacete, mas o contato aconteceu.

Por fim, o difícil ano de 2020 não poderia deixar de ter mais um susto e, no GP do Bahrein postergado para o fim da temporada, um dos piores acidentes recentes da F1 aconteceu. O maior choque proporcionado pela batida de Romain ao público é, sem dúvidas, a explosão. Carros de Fórmula 1 pegam fogo, como aconteceu com Sergio Perez no fim da prova, mas não explodem. Ao menos não deveriam mais.

As chamas que tomaram o conta do carro e do local do acidente serviram de agravante para situação, uma vez que o cockpit de Grosjean ficou cravado no guard rail. E nesse acidente é possível ver diversos dos mecanismos de segurança presentes num carro de Fórmula 1 em ação; não apenas um ou outro.

Cockpit do carro de Romain Grosjean cravado no guard rail, após o incêndio ser extinto. Foto: Motorsport Images.

Logo de começo, fica clara a atuação da célula de sobrevivência, que numa batida frontal se manteve integra. Também há o halo que, com o rompimento do guard rail, abriu espaço para a cabeça de Grosjean evitando o choque direto com a barra metálica. Além disso, com o surgimento de fogo, o fator antichamas das vestimentas (capacete, macacão, luvas e sapatilha) do piloto asseguraram danos mínimos a ele.

O halo tem função e, assim como num avião, você não quer que ele precise ser usado. Mais do que isso, o halo não está sozinho quando o assunto é segurança a bordo de um Fórmula 1, formando a chamada redundância. Seus “milagres” existam, mas não é por conta deles que o dispositivo permanece nos carros. Então não há necessidade de tanto empenho em provar suas capacidades, uma vez que ele não estaria lá sem ter sido testado e aprovado.

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