Esteban Guerrieri não é segundo piloto

Esteban Guerrieri é um dos principais representantes do automobilismo argentino a nível mundial na atualidade, se colocando também como um dos principais pilotos de Turismo no planeta. No último domingo (11), na terceira etapa do Mundial de Turismo (WTCR), Esteban provou que não está onde está por acaso e não aceita o posto de segundo piloto.

O WTCR tem como um de seus princípios permitir apenas equipes privadas em seu grid, deixando as fabricantes somente como fornecedoras. O objetivo é manter os custos baixos para que, assim, o campeonato se mantenha economicamente viável por mais tempo. Infelizmente, marcas como Hyundai, Honda e Lynk & Co. não aceitam bem essa regra e financiam seus clientes.

Junto desse dinheiro vem a influência e o poder de decidir como as operações se darão. Então, além do apoio técnico e de definir os pilotos de suas equipes clientes, as ordens de equipe ganham ainda mais força a fim de limitar os riscos das montadoras. Nenhuma novidade para quem já viu uma ou outra corrida da Fórmula 1.

No último fim de semana, o Mundial realizou a sua terceira etapa da temporada 2020, na Eslováquia. E foi lá que Estaban Guerrieri tornou-se o personagem desse texto.

Honda Civic Type R TCR #86 de Esteban Guerrieri em Slovakia Ring, Eslováquia. Foto: Honda Racing WTCR via Twitter.

Estaban foi um dos principais nomes da temporada passada na competição, terminando o ano como vice-campeão após vencer quatro corridas e ir ao pódio outras seis vezes. A bordo de seu Honda Civic Type R TCR #86, o argentino liderou os resultados da montadora japonesa, colocando-se como piloto número 1. E assim ele entrou em 2020.

Infelizmente para Guerrieri seu ano não começou bem e, após um abandono já na primeira corrida, viu seu companheiro de equipe, Néstor Girolami, assumir seu posto e liderar a Honda nas duas primeiras etapas. Também argentino, Girolami venceu a primeira corrida da temporada e manteve-se como principal concorrente aos carros da chinesa Lynk & Co. após as corridas em Nürburgring Nordschleife.

Na classificação do campeonato, Yann Ehrlacher era o líder quando o WTCR chegou à Slovakia Ring. Girolami ocupava a segunda posição e Guerrieri era apenas o sexto colocado. Dessa forma, é fácil de imaginar quem teria a prioridade da equipe no fim de semana.

Então deu-se a largada para a primeira corrida da etapa. Néstor partiu da sétima posição e Estaban da nona. Com Ehrlacher largando fora do top 10, essa era a oportunidade perfeita para diminuir a diferença na disputa do titulo. E foi o que aconteceu, mas não exatamente da maneira como você deve estar imaginando.

Ambos fizeram uma boa corrida, buscando ultrapassagens e se aproveitando das brechas que surgiam, sempre com Girolami à frente de Guerrieri. Mas, a duas voltas do fim, Esteban aproveitou seu ritmo mais forte e chegou em Néstor. Estava iniciada a disputa pela quarta posição.

Girolami liderando Guerrieri, em Slovakia Ring. Foto: WTCR.

Na transmissão da prova, assim que Guerrieri começa seus ataques, entra a comunicação via rádio de Néstor com a equipe na qual o piloto questionava a atitude de seu companheiro. Após receber uma resposta pouco satisfatória, Girolami insiste de forma mais direta: “Ele vai atacar ou não?” e recebe uma negativa como resposta.

Então chegamos à última volta e, mais uma vez, a comunicação via rádio entre Girolami e sua equipe é apresentada ao público. Dessa vez, a pergunta do argentino é um pouco diferente: “Eu preciso defender minha posição ou não?”, questionou. E a resposta foi pouco animadora para ele. “… falamos com Guerrieri para não atacar mas se achar que precisa, defenda-se”. Assim que o áudio é interrompido, o que se vê na tela são os dois Hondas se tocando, porta com porta, ao longo da reta oposta do circuito, sob críticas do narrador e do comentarista.

Ao fim da reta, numa bela manobra, Guerrieri aplica um “xis” em seu companheiro de equipe e toma a posição até o fim da última volta. Com a ação, Girolami somou dois pontos a menos mas com Ehrlacher terminando em nono a diferença foi reduzida. Esteban Guerrieri mostrou que não é segundo piloto e que ordens de equipe não vão segura-lo quando é o mais rápido dos Hondas.

No retorno aos boxes, a transmissão foi tomada por argumentos contrários à ação de Esteban por parte de narrador e comentarista. Acostumados com ações que visam o melhor para equipe, é provável que a dupla de transmissão do Eurosport tenha se esquecido da verdadeira função de um piloto. Pouco importa se Néstor estava na disputa do campeonato e depois da Eslováquia só restasse outras três etapas. Pouco importa se Esteban terá ou não a chance de disputar o título ao decorrer do campeonato. O que importa é que Guerrieri é um piloto número 1 e não se sujeita a receber ordens de equipe. Ele é o mais rápido e demonstra isso na pista, com disputas justas e limpas.

Girolami, por outro lado, tornou a reclamar – de forma comedida – ao dizer que “estava claro que eu não tinha que defender a posição e então ele atacou”. Ainda de dentro do carro, via rádio, disse que precisava falar com Guerrieri. A partir desse ponto, todas as declarações foram mais políticas. Mas a história não para por aí, afinal, era apenas primeira de três corridas do fim de semana.

Esteban Guerrieri (esq.) e Néstor Girolami (dir.). Foto: WTCR.

Na corrida 2 era Néstor Girolami quem partia da pole, com Esteban partindo da quinta posição e, mais uma, vez Yann Ehrlacher largando fora do top 10. A oportunidade de ouro para Girolami. Mas o piloto falhou, largou mal em seu Honda #29 e, na curva 1, tomou um toque que lhe tirou a liderança. Guerrieri, por outro lado, aproveitou a oportunidade e assumiu a posição vaga ao ultrapassar os outros dois carros que ainda estavam à sua frente.

Na volta final, Girolami voltou a ser o foco da transmissão após uma forte batida ocasionada pelo toque com o Alfa Romeo de Jean-Karl Vernay. Néstor ficou bem, mas não conseguiu terminar a prova e nem largar na terceira e ultima corrida da etapa. Guerrieri também não chegou a vencer a corrida, mas pontuou e, após a corrida 3, assumiu o posto de melhor Honda do campeonato, retomando o cargo de líder da equipe.

Quanto ao campeonato, um novo nome assumiu a posição de vice com uma diferença bem menor do que Girolami tinha antes das três corridas. Guerrieri avançou ao quinto posto e segue a 35 pontos do líder, 4 a mais do que tinha seu companheiro de equipe quando vice.

Campeonatos são importantes, mas não são nada sem as corridas. E essas só têm valor quando quem está na pista tem a sede de vitória. Esteban Guerrieri é um piloto que sabe o que quer, tem os meios para tal e não se curvará em situações desfavoráveis. Mostrou que domina o ambiente da equipe e, por isso, é um nome a ser admirado num automobilismo onde vemos cada vez menos disputas duras e limpas entre companheiros de equipe.

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